Prisão de Delcídio

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O líder comunitário Ricardo Crô escreveu o artigo “Advogado” do Delcídio, criticando a hipocrisia de altas figuras da República e a seletividade da justiça brasileira. Leia o texto:

"ADVOGADO" DO DELCÍDIO

Por Ricardo Crô

Não! Não quero, não posso, não devo… Não tenho capacidade e competência, por óbvio, para bancar o advogado diabo, tampouco o advogado do "pobre diabo" Delcídio. Mas fiquei encafifado com as estranhas circunstâncias que levaram a 2ª Turma do STF a decretar a prisão preventiva do tucano neopetista. E não quero contestar, aqui, pura e simplesmente, a detenção de um congressista, em pleno gozo de suas funções parlamentares, agasalhado pelo hediondo véu do foro privilegiado. Mas, confesso aos senhores jurados sociais: temo pela jurisprudência que esse ato estranho possa causar. Temo pelo rompimento de uma importante "barreira constitucional". Temo por uma avalanche interpretadora pelos tribunais inferiores, ao decretar, a partir desse vazar de direitos, pelas prisões arbitrárias contra os mais pobres. Os sem banqueiros, os sem senadores, os sem chefes de gabinete, os sem advogados, os sem foro e sem visibilidade. Claro que prisões covardes contra os do povo são frequentes e, como sabemos, são apoiadas por boa parte da sociedade que ora aplaude o encarceramento dos figurão de cabelos bem formatados. O nó górdio, a meu sentir, não é essa prisão em si, pela qual muitos não nutrem dó. O imbróglio reside em se transformar esse suposto crime perpetrado pelo Estado, em prática legal, em "preceito constitucional". Os crimes imputados ao senador – que são gravíssimos -, bem como os áudios (legais?) produzidos pelo  jovem Cerveró, asseverariam a indubitabilidade da culpabilidade do líder governamental. Mas, se "julgarmos" com a frieza critica que deveria nos resguardar o raciocinar… Se buscarmos ignorar o ódio aos "políticos", fomentado por boa parte da sociedade, e que nos é embutido cotidianamente no cerebelo pela mídia grande e pela própria vigarice dos "com prerrogativas"… Quem sabe? Quem sabe poderíamos enxergar – com nossa visão menos turvada pela vingança que nos cega -, nos votos dos cinco capas pretas, uma atitude de autoproteção, alguma imperfeição, uma certa  retaliação contra um imbecil que foi flagrado usando os nomes dos juízes deuses em vão? Sobre os fatos, uma versão. Nas gravações (legais?)  – vazadas novelísticamente – ele, o Delcídio, cita, além do vice Temer, alguns dos ministros que participaram de seu "julgamento".

E, a meu sentir, sempre a meu sentir, suas intocáveis excelências, com o intuito intuitivo e ilibado da autopreservação corporativa, intentando dar uma resposta rápida à hipocrisia social, sábios notórios que são, criaram uma nova modalidade criminosa, a fim de mandar prender um congressista criminoso. Como se sabe, um detentor de prerrogativa de foro, um privilegiado, no exercício do mandato, desde sua diplomação, não pode ser preso. Salvo em caso de flagrante delito, no cometimento de um crime inafiançável. Tenho minhas dúvidas quanto a esses privilégios, tenho. Mas eles ainda estão em vigor. Ouso proclamar que a mal cheirosa  fragrância desse flagrante é notória. E, afoito que me quero, julgo que não é fácil afiançar inafiançabilidade do delito em tela: a Associação Criminosa. Tudo é muito confuso, mas teimo em achar que essa prisão – cujo viçoso personagem nos servirá de exemplo -, no mínimo nos põe a refletir sobre a justeza de nossa inatacável Justiça Suprema.

Sabemos que esse exótico encarceramento, ratificado pelo pleno do Senado Federal, tendo como Grão Mestre o Senhor Calheiros, de pronto, estampara em nossos desejos mais primitivos, imagens de outras máfias políticas que precisam ser devidamente enquadradas.
Mas também é bom que lembremos, e não nos esqueçamos,  que medidas como essas são raríssimas e facilmente contestáveis pelos generosos agentes advocatícios, donatários de saberes que nem os deuses do Direito ousam condenar.  Saberes remunerados a peso de óleo fóssil, cuja origem incontestável ninguém pode contestar. "E é assim que deve ser".

Mas, se para os aquinhoados essas medidas exemplares são infrequentes, o mesmo não podemos afirmar quanto aos miseráveis que, mesmo sem esse precedente, são espancados pelo punho rijo da justiça cega. São essas aberrações jurídicas – sempre a meu sentir -,  apensadas à social hipocrisia criminosa de parte de nossa população que, vez por outra, são usadas pra jogar nossos jovens – pretos e pobres – nas masmorras da vida, que matam nossa esperança.

Não precisamos, como decantou o poeta, profetas diários que somos, de pensar no Haiti. O Brasil é aqui. E é nessa pátria mãe gentil que, infelizmente, fazemos, interpretamos ou burlamos leis, de acordo com nossa imbecil conveniência. É aqui, no solo desse Brasil, onde condenamos exemplarmente nossos hediondos terroristas… Esses que, com o instinto facínora de limpar da face da terra os cães infiéis, nos atacam com seus coquetéis-molotovs de água sanitária e pinho sol. Ele nos dão um Delcídio. Nós damos a eles milhares de Rafaéis.

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